BDRA-43-A fábrica do verde
Marcelo Gigliotti Machado Jornal do Brasil - Rio de Janeiro, RJ February 2010
Projeto do Horto Florestal prevê maior produção de mudas a partir de sementes coletadas em reservas florestais.
Em plena Zona Sul do Rio, existe uma verdadeira fábrica de vida. É o Horto Florestal, que produz mudas de espécies, principalmente da Mata Atlântica, usadas tanto para embelezar jardins e sítios particulares como para reflorestar áreas degradadas. Até aí, todo carioca que se preze conhece esta história. A novidade é que este berçário ambiental está (im)plantando um novo sistema de produção de mudas. As sementes serão retiradas de áreas nativas e de reservas florestais.
- As sementes encontradas na natureza têm mais diversidade genética - diz o botânico Ricardo Reis, Coordenador de Coleções Vivas do Jardim Botânico, instituição à qual o Horto Florestal está vinculado. Até hoje, as mudas produzidas pelo Horto Florestal têm sido provenientes de sementes retiradas em áreas urbanas, no
Jardim Botânico e em locais como o Aterro do Flamengo. Segundo o botânico, sementes retiradas destes ambientes urbanos têm menos diversidade genética. É como o problema de consanguinidade que acontece entre animais com pouca população.
- As árvores plantadas com estas sementes urbanas podem ser mais vulneráveis a doenças, pois são mais suscetíveis a mudanças genéticas - diz o cientista.
O novo projeto do Horto Florestal busca coletar sementes, digamos, com pedigree da natureza. Para isso, os cientistas do Jardim Botânico estãoiniciando um trabalho de localização de matrizes em áreas virgens do Estado do Rio de Janeiro. Este levantamento jáseu deu em dois locais do estado: Silva Jardim e Paraty.
- Marcamos árvores que estejam num estado de maturidade que produza sementes regularmente e com fácil acesso para coleta - diz Ricardo Reis.
A prioridade para a produção de mudas é coletar sementes de espécies arbóreas da Mata Atlântica. Outro critério é produzir mudas de árvores mais propícias para reflorestamento, como paineiras e leguminosas.
- As paineiras têm um rápido crescimento e ajudam a formar biomassa mais rápido. As leguminosas ajudam a fixar o nitrogênio no solo, ajudando na recuperação de áreas degradadas - diz o botânico.
O terceiro critério para a escolha das árvores nativas que gerarão sementes é sua raridade, como as espécies mais ameaçadas de extinção.
- Temos como exemplo o jequitibá, considerado uma planta emergente, que cresce mais do que as outras e é um símbolo da Mata Atlântica. Outra espécie ameaçada é o palmito juçara - comenta Ricardo Reis.
Dentro do novo projeto de produção de mudas estão previstas melhorias no Horto Florestal, como reforma de canteiros e de sistemas de drenagem. Além disso, o projeto prevê garantir recursos para fazer o trabalho de campo de coleta de sementes através de parcerias com a iniciativa privada.
Coordenada 1 - Produção anual chega a 40 mil plantas, de 500 espécies
Não é pouca coisa, não. O Horto Florestal produz anualmente 40 mil mudas, que crescem a partir de sementes de cerca de 500 espécies. Uma parte deste total é plantada no Jardim Botânico, para recompor o arboreto. O restante é doado para escolas e prefeituras ou vendido para particulares. Como o Horto integra uma instituição científica e não tem fins comerciais, estas verdadeiras riquezas naturais, que são as mudas, saem por preços para lá de camaradas. A mais cara é a muda do pau-brasil, que custa R$ 8. Mas a maioria custa entre R$ 2 e R$ 5. No ano passado foram vendidas 20.600 mudas. Outras 10 mil foram doadas.
- Estas vendas só servem para cobrir custos de manutenção - explica o responsável pelo Horto Florestal, o engenheiro agrônomo José Maria Assumpção. O pau-brasil, aliás, é a espécie mais procurada, juntamente com ipês (roxos e amarelos) e jacarandás. Mas há plantas para tudo quanto é gosto nos 10 mil metros quadrados do Horto. E para vários perfis de consumidor. Há desde proprietários de sítios a pessoas como a bióloga Nathalia Bezerra, que esteve lá ontem em busca de uma espécie boa para plantar em margens de rios, ou seja, no linguajar técnico, uma espécie de mata ciliar.
- Estou fazendo um projeto científico e pretendo plantar a muda na margem de algum rio degradado, pois estas plantas ajudam a conter a erosão dos rios - ensina Nathalia, de 24 anos. Ela ficou circulando pela área do Horto em meio à centenas de mudas para escolher a espécie. Queria uma planta com flores.
- Para atrair abelhas e borboletas, que vão poder polinizá-la e ajudar na sua reprodução - explica a bióloga. Nathalia estava na dúvida entre levar um ingá ou um capixingui. Acabou levando um araçá, a R$ 3. - O papel de um horto é muito importante. Afinal, ele permite resgatar plantas nativas e devolver elas à natureza - diz a bióloga, que só cultiva em seus experimentos mudas da flora brasileira, especialmente da Mata Atlântica. A venda de mudas só é feita nos dias de semana, de segunda à sexta, das 9h às 11h e das 14h às 16h. O endereço é Rua Pacheco Leão 2040.
Coordenada 2 - Coleta de sementes segue calendário
Todo dia, dois coletores percorrem as alamedas do Jardim Botânico coletando sementes. Uma parte deste material vai para o laboratório de sementes da instituição. Outra segue para a equipe de José Maria Assumpção, que produz as mudas. O próprio José Maria gosta de passear pelo parque à cata de espécies, com seu olho treinado para identificar sementes raras.
- Até na rua, quando vejo uma árvore frutificando, não resisto e faço uma coleta - diz o funcionário, que há 20 anos se dedica ao Horto Florestal. Depois de tantos anos de produção - o Horto foi fundado em 1911 - existe até uma uma agenda para coleta das espécies. Com a experiência passando por gerações de funcionários, o pessoal do Horto sabe qual árvore ou planta está dando frutos ou sementes em determinado mês ou estação. Depois de coletadas, as sementes são plantadas em saquinhos plásticos cheios de uma terra orgânica, produzida no próprio Jardim Botânico, a partir de folhas caídas, resíduos vegetais e da própria varredura das alamedas do parque. Algumas sementes são plantadas em recipientes maiores. Quando germinam, as pequenas mudas são transferidas para os saquinhos. Algumas espécies têm que passar por uma aclimatação em tipos de estufa chamadas ripados.
Ali elas ficam protegidas por telas que cortam um pouco a luminosidade e deixam o ambiente mais úmido. Em média, as mudas estão prontas para plantio no solo depois de três meses. Mas há espécies, como a maçaranduba, que levam dois anos para virar uma muda. As mudas ficam distribuídas no terreno do Horto, agrupadas por espécies ou por categorias. Há canteiros com plantas ornamentais. Outros com árvores frutíferas. No verão, elas são regadas duas vezes por dia, de manhã e à tarde, através de um sistema de irrigação por chuveiros instalados no solo que jogam água para cima.

