Cientistas estudaram biodiversidade de SC
Ana Paula Lückman Jornal A Notícia Verde - Blumenau, SC May 2001
Os trabalhos exaustivos e apaixonados de dois cientistas, em diferentes épocas, foram fundamentais para aprimorar a compreensão sobre a rica biodiversidade da Mata Atlântica. E foi em Santa Catarina que ambos concentraram seus estudos, dando importantes contribuições para a ciência mundial. O médico e filósofo alemão Johann Friedrich Theodor Müller, conhecido como Fritz Müller (1822-1897), radicado em Blumenau a partir de 1852, formulou contribuições científicas que revolucionaram o pensamento biológico do século 19. O sacerdote católico Raulino Reitz (1919-1990), natural de Antônio Carlos, na Grande Florianópolis, descobriu durante suas pesquisas na floresta cinco novos gêneros e 327 novas espécies, consagrando-se como "o padre dos gravatás", dada sua notoriedade no estudo das espécies de bromélias.
Para o botânico Ademir Reis, a imensa importância do trabalho de Fritz Müller reside no seu pioneirismo. "Foi ele quem começou a levantar a grande importância da biodiversidade que havia aqui. Tinha uma forma única de ver e descrever a natureza", atesta. "Foi o grande pesquisador que começou a ver a natureza na sua complexidade, no seu nível de interações, o ciclo de vida. Está mais atual do que alguns grandes pesquisadores de hoje em dia", acrescenta.
Prova da importância de Müller para a ciência mundial é a farta correspondência trocada entre ele, modesto agricultor que dedicava várias horas do dia pesquisa científica, e o biólogo inglês Charles Robert Darwin (1809-1882), autor da Teoria da Evolução, expressa na obra "Origem das Espécies". Não se sabe quem tomou a iniciativa do contato, mas há evidências de que a primeira edição da obra de Darwin despertou grande interesse em Fritz Müller. A riqueza da troca de informações entre os dois cientistas também é notável: nas edições posteriores da "Origem das Espécies", Fritz Müller foi citado nada menos do que 17 vezes.
Ordenado na Igreja Católica em setembro de 1943, aos 24 anos, Raulino Reitz herdou dos pais Nicolau e Ana o amor pela natureza e o cultivo da botânica. Fundou, em junho de 1942, o Herbário Barbosa Rodrigues, ainda hoje sediado em Itajaí. Entre 1938 e 1990 percorreu mais de 1 milhão de quilômetros em 973 excursões de pesquisas por todos os municípios catarinenses, deixando várias obras publicadas. Criou também a revista "Sellowia", em 1949, que teve 48 volumes impressos e é uma importante fonte de informação científica.
"As grandes informações para a restauração da natureza, hoje, estão na obra de Raulino Reitz", testemunha o botânico Ademir Reis, atual diretor técnico do herbário criado pelo mestre. "Em matéria de conservação, hoje a preocupação deve ser com restauração: estragamos o meio ambiente, temos que restaurá-lo", esclarece. "Reitz descreve cada espécie, toda a ecologia, onde ela ocorre. Nenhum Estado do Brasil tem esse nível de informação como Santa Catarina", exulta. O trabalho de Reitz está contido em 180 volumes, que descrevem praticamente 70% da diversidade do Estado, informa.
Deve-se a Raulino Reitz a proposta de caracterização da orquídea Laelia purpurata como flor-símbolo do Estado. Humilde, metódico, persistente e batalhador, teve atuação importante na criação de várias importantes unidades de conservação, como o Parque Botânico do Morro do Baú (Ilhota), o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro (Grande Florianópolis) e da Reserva Biológica do Sassafrás. Sua morte, aos 71 anos, deixou órfãos vários discípulos no meio científico. Admiradores e familiares transformaram seu jazigo num pequeno jardim com suas espécies prediletas: em Antônio Carlos, o padre dos gravatás descansa entre 19 espécies de bromélias, uma palmeira juçara e vários imbés.
Saiba mais
A íntegra de muitas das cartas trocadas entre Fritz Müller e Charles Darwin pode ser lida em traduções fluentes para o português no livro "Dear Mr. Darwin - A intimidade da correspondência entre Fritz Müller e Charles Darwin" (Sky/Anima Comunicação e Design, 1997), escrito por Cesar Zillig. A obra foi lançada como parte das celebrações em torno do centenário da morte de Müller. Uma concisa biografia que dá uma boa noção da vida do cientista está no artigo "Fritz Müller - Um revolucionário da ciência", da historiadora Sueli Maria Petry, publicado nos anais da 5ª Reunião Especial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (1997).
Uma completa biografia do padre Raulino Reitz e sua trajetória científica está disponível no site do Herbário Barbosa Rodrigues(www.cttmar.univali.br/"hbr). Um texto denso assinado por Zilda Helena Deschamps Bernardes, secretária do herbário, dá uma visão panorâmica do trabalho de Reitz e revela inclusive detalhes de sua personalidade. O site também tem mais informações a respeito do Parque Botânico do Morro do Baú, da revista "Sellowia", dos volumes da "Flora Ilustrada Catarinense" e de outros cientistas que atuam ou atuaram no herbário.

