Honorable Mention

Ave rara

Rachel Martins   A Gazeta - Vitória, ES   July 2001


São 6h30 da manhã. É outono. Na fazenda Pindobas IV, do empresário Camilo Cola, em Conceição do Castelo, sul do Espírito Santo, trabalhadores locais se levantam para mais um dia de trabalho.
O sol ainda nem despontou. Mas o frio é de arrepiar. O silêncio é um bom momento para reflexão. O aroma do café e do bolo de fubá, recém-saídos do forno, mostra que a vida no local anda em outro ritmo.
Ao longe é possível ver parte da mata nativa, que representa 40% da propriedade. Ali encontra-se uma ave rara, com cerca de 12,5 centímetros e 22 gramas: a saíra-apunhalada (Nemosia rourei).
Quem a vê entende a origem popular do nome. O peito branco tem uma mancha vermelha, como sangue, parece ter sido apunhalada por algum caçador imprudente.

De relance

A história da ave é curiosa. No século XIX , Jean de Roure capturou o primeiro exemplar da espécie na região de Muriaé, leste de Minas Gerais.

Intrigado, pois nunca havia visto nada parecido, enviou a pele ao naturalista Carl Hieronymus Euler, um suíço radicado no Brasil, que residia no interior do Rio de Janeiro.

Este mandou-a para o ornitólogo Jean Cabanis, do museu de Berlim, na Alemanha, onde permanece até hoje. Por carta, o estudioso dizia nunca ter visto a espécie em mais de trinta anos de coleta.

Em 1870, Cabanis a descreveu, indicando a procedência, tamanho e cor, entre outras características. Esse escrito foi a primeira referência sobre a ave no mundo.

Passaram-se 71 anos antes que alguém a visse novamente voando no Brasil. Só em 1941, o ornitólogo alemão Helmut Sick avistou um grupo de oito espécimes em Itarana, na localidade de Jatibocas, região centro-serrana do Estado.

Como não coletou nenhum espécime e desconhecia o exemplar empalhado do Museu de Berlim, apenas registrou detalhes da plumagem em seu livro de campo. Mais tarde, quando voltou à Alemanha e visitou o museu, percebeu a importância de sua descoberta.

Mas apenas em 1979, 38 anos depois de tê-la avistado, Sick redigiu nota oficial a respeito: um texto breve, com cinco linhas, publicado no "Bulletin of the Britsh Ornithologists Club" (Boletim do Clube dos Ornitólogos Ingleses).

Esconde-esconde

Após 1941, num misterioso jogo de esconde-esconde, a saíra-apunhalada levou mais 54 anos para dar o ar da graça. Em 1995, o birdwatcher (observador de aves) Dereck A. Scott registrou, no município de Santa Teresa, na Reserva Biológica Augusto Ruschi, a cerca de 30 quilômetros a leste de Jatibocas, um indivíduo em bando misto, parecendo a Nemosia rourei. Mas ficou em dúvida se realmente tratava-se da espécie.

Três anos depois, em 22 de fevereiro de 1998, seis pesquisadores brasileiros, Claudia Bauer, José Fernando Pacheco, Ana Cristina Venturini, Pedro Rogerio da Paz, Mariana Pacheco Reher e Luciano Petronetto do Carmo, viram-na novamente em Pindobas IV. Por acaso.
Esta área particular tem cerca de 3.300 hectares, onde a principal atividade econômica é o cultivo de pinnus.

Sopro

A convite dos biólogos Pedro Rogério e Ana Cristina, a ornitóloga carioca Claudia Bauer visitou a fazenda para levantar dados para sua dissertação de mestrado intitulada "Padrões atuais de distribuição de aves florestais na região sul do Estado do Espírito Santo, Brasil". De repente as lentes do binóculo acusaram a saíra-apunhalada.

Sua primeira reação foi chamar os companheiros para testemunhar a descoberta, era importante que todos a vissem. Claudia ficou tão emocionada que sua vista embaçou.

Eles não deixaram por menos: logo gravaram a "voz" da ave. Dois dias depois voltaram à mata. Seguiram a mesma trilha e lá estava, novamente, a saíra-apunhalada. O espetáculo durou 1h15.

Esconderijo

A partir daí, a equipe da Originalis Natura (Pedro Rogério, Ana Cristina, Mariana e Luciano) passou a acompanhar a ave. Foram feitas excursões ao local em diferentes meses do ano. Em todas possível registrar a Nemosia rourei.

Em setembro de 1998, o grupo anilhou um indivíduo junto com a bióloga Glória Castiglioni. Na época, apenas duas notas registraram o fato.
A primeira saiu no "Atualidades Ornitológicas", periódico brasileiro que publica artigos sobre aves. A segunda, na revista "Cotinga", do Neotropical Bird Club - NBC.

Atualmente, o único lugar do mundo onde há registro da saíra-apunhalada é no Espírito Santo, na fazenda Pindobas IV.

Mata de Castelo

A redescoberta da Nemosia rourei agitou o mundo científico. A dificuldade para vê-la levou muitos pesquisadores a duvidarem de sua existência. A maioria acreditava que estava "provavelmente extinta". Outros diziam que poderia ser um híbrido.

Engano. A espécie resolveu mesmo pousar no Espírito Santo. Para vê-la, ornitólogos e birdwatchers (observadores de aves) do Brasil e do exterior visitam a região desde 1998. Vão embora satisfeitos e preocupados. Sabem que a sobrevivência da saíra-apunhalada e de outras 245 aves e 20 mamíferos catalogados na mata da fazenda depende de um amplo trabalho de conservação da área.

"Essa é nossa maior preocupação", diz Pedro Rogério. Por enquanto a espécie está em segurança, pois o proprietário da fazenda vem preservando os remanescentes da floresta nativa. "A idéia é transformar a área em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN)", ressalta Ana Cristina.

Árvores

Dois grupos de saíra-apunhalada foram vistos em Pindobas IV: um com seis indivíduos, incluindo o anilhado, e outro com cinco, sem o anilhado.
Considerando que o segundo pode englobar-se dentro do primeiro é possível afirmar a presença de pelo menos seis indivíduos. Se forem distintos, existem cerca de onze.

Pouca coisa se sabe sobre a espécie. Apenas que é naturalmente rara e endêmica do sudeste do Brasil. É territorialista, defende o seu espaço.

Voa, normalmente, em bando misto, ao lado de outras aves comuns na região. Como, por exemplo, o caneleiro (Pachyramphus castaneus); a saíra-da-mata (Hemithraupis ruficapilla); a saíra-lagarta (Tangara desmaresti); o sanhaço-de-encontro-azul (Thraupis cyanoptera); o pica-pau-dourado (Piculus aurulentus); o arapaçu-verde (Sittasomus griseicapillus); entre outros. O gritador (Sirystes sibilator) é o líder usual do grupo.

Até o momento sabe-se que a saíra-apunhalada alimenta-se de pequenos invertebrados. Não come frutas, apesar de estarem disponíveis no local. A voz é fina e de longo alcance. Nas copas das árvores altas pula de galho em galho com movimentos rápidos. Depende de ambientes florestais, principalmente para se reproduzir - já foi observada em atividade de nidificação.

Pesquisa

Desde janeiro de 2000, o Neotropical Bird Club (NBC), uma associação internacional que valoriza projetos de pesquisa e conservação de aves na região dos países americanos que vai do México à Patagônia, apoia o trabalho da equipe.

O projeto "Biologia e Conservação da Saíra-apunhalada, Cherry-throated Tanager (Nemosia Rourei)", elaborado pelos biólogos da Originalis Natura e premidao pelo NBC, visa um estudo aprofundado sobre a ave.

Pesquisas de campo estão sendo realizadas em outros pontos do Espírito Santo, além de Minas Gerais e Rio de Janeiro - em regiões serranas acima de 700 metros de altitude. O objetivo é verificar novos indivíduos em outras áreas. Mas até agora não houve ocorrência da Nemosia rourei nesses locais. A não ser em Pindobas IV, a 1.100 metros de altitude.

Outra proposta do trabalho é o estudo, por observação direta, de sua biologia. Mas a principal meta é elaborar uma estratégia de ação para a conservação da espécie.

Canto da ave conduz os passos

Paciência, esta é a palavra-chave para observar aves. Principalmente quando se trata de espécies raras ou ameaçadas de extinção. Os biólogos Ana Cristina e Pedro Rogério as identificam pela "voz".
É possível ouvir o canto do corocochó (Carponis cucullatus), que onomatopéico repete seu próprio nome, do surucuá (Trogon surrucura); do sanhaço-de-encontro-amarelo (Thraupis ornata); do tangarazinho (Ilicura militaris); da araponga-do-horto (Oxyruncus cristatus); do inhambu-guaçu (Crypturellus obsoletus); do araçari-poca (Selenidera maculirostris); do gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus); e do tangará (Chiroxiphia caudata); entre outros.

Usando uma metodologia especial pode-se atrair as aves através do som. Elas respondem ao play back de suas "vozes", mas é necessário cautela para não estressá-las Aos poucos a ave se aproxima. Em época de acasalamento, entre outubro e novembro, é mais fácil apreciá-las.

Vôo

Em Pindobas IV são comuns outros bichos. Como o gavião-de-rabo-branco (Buteo albicaudatus) e o pica-pau-do-campo (Colaptes campestris).

O fim do dia dá um colorido especial à paisagem do lugar. As vezes não é possível ver a saíra-apunhalada e a expectativa transforma-se em desapontamento, tristeza que acomete até experientes birdwatchers. Com sorte, elas apareceram no meio de um bando misto: seis indivíduos, um anilhado. De binóculo é possível avistá-las.

Para observá-las, Ana Cristina fica embaixo de uma árvore e faz o play back. À procura da "voz", uma das saíras-apunhaladas pousa de mansinho num galho próximo.

A ave é delicada e linda. O peito vermelho em contraste com o branco e o preto que envolve seus olhos e asas chama a atenção. Sem luz, as fotos ficaram para outro dia.

Em outra visita, a saíra-apunhalada recompensa o esforço com 1h30 de espetáculo. Cerca de 100 imagens, feitas pelo fotógrafo Valter Monteiro comprovam sua existência.

Considerada "provavelmente extinta" em diferentes listas mundiais de aves ameaçadas, prova que está bem viva.

Antes a saíra-apunhalada só havia sido documentada em desenho. A partir de agora, a existência da Nemosia rourei depende de um trabalho de preservação da área. Abençoado seja o Espírito Santo.

Devastação

Elas estão de passagem

A mata nativa em Pindobas IV caracteriza-se por sua umidade. Muitas árvores abrigam epífitas - bromélias e orquídeas. Existem trepadeiras, palmitos e samambaias, além de musgos e liquens. Algumas árvores atingem 40 metros de altura. A saíra-apunhalada já foi observada tanto no interior da mata como na borda, em contato com culturas de café e eucalipto. Algumas espécies catalogadas no local estão ameaçadas de extinção. É o caso do apuim-de-cauda-amarela (Touit surda); do bacurau-tesoura-gigante (Macropsalis forcipata); do pica-pau-rei (Campephilus robustus); e do tropeiro-da-serra (Lipaugus lanioides). E ainda da preguiça-de-coleira (Bradypus torquatus); do sagi-da-cara-amarela (Callithrix flaviceps); entre outros bichos.

DICAS

Como chegar
* O município de Conceição do Castelo localiza-se no sudoeste do Espírito Santo. Fica a 121 quilômetros de Vitória, pela BR 262.

* As visitas ao local devem ser agendadas com antecedência. Exigem autorização do proprietário e a companhia dos profissionais responsáveis pelo projeto. A área é aberta apenas para biólogos, ornitólogos e observadores de aves, além de pesquisadores do meio ambiente.

* Informações no site da Originalis Natura: www.originalisnatura.com.br

Anote

* Nome popular: Saíra-apunha-lada
* Nome da espécie: Nemosiarourei
* Filo: Chordata
* Classe: Aves
* Ordem: Passeriformes
* Família: Emberizidae
* Sub-família: Thraupinae
* Status de Conservação: No Brasil: ameaçada de extinção segundo portaria do Ibama (1522 de 19/12/1989). No mundo, é considerada uma das espécies mais ameaçadas de extinção no mundo.